A moda se rende às ilustradoras

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Por Emilie de Lassus

Leveza, surpresa, presença de espírito. A ilustração é um pedaço de alma. Impossível duas pessoas materializarem no papel a mesma idéia, da mesma forma e com os mesmos elementos. Na cena fashion, os ilustradores têm garantido seus lugares nas primeiras filas dos desfiles e nas melhores páginas de revistas, graças a  sensibilidade de representar este mundo feérico à sua maneira.

A moda é popularmente definida como “Um reflexo de seu tempo.” Eis que ao longo da sua trajetória, esta faceta de sua expressão, após algumas décadas de discrição, vem reflorescendo.  A ilustração afinal, não é tão efêmera quanto tantos outros elementos que formam o sistema de Moda.

134295Ela existe desde o século XVII, contudo, sua versão “moderna” foi lançada por Paul Poiret, estilista responsável por livrar as mulheres do corselete. Destacando suas coleções através dos desenhos de Erté, Barbier, Iribe, Lepape Poiret fez com que ilustradores se tornassem verdadeiras estrelas do mundo fashion no século XX, tornando-os indispensáveis em todas as Maisons da época: Chanel, Dior, Lanvin.

Entre muitos talentosos, um dos mais notáveis foi Bébé Berard, que ilustrava regularmente capas da Vogue, Harper’s Bazaar, L’Officiel, entre  outrasBébé fazia parte do Tout-Paris, em uma época onde inúmeras expressões se uniam para reformular e modernizar conceitos, o que culminou em vanguardas artísticas de moda, pintura, decoração, arquitetura, literatura, teatro.

I-Dream-of-Jeannie-Shoe-Portfolio-by-Andy-WarholCuriosamente, em outros tempos de revolução cultural, um ilustrador de Moda viria a se tornar o príncipe da Pop Art. Andy Warhol começou sua carreira como ilustrador, trabalhando para as melhores revistas da época. A pop art foi um movimento dos anos 50 e 60 que criticava a massificação vazia da cultura e Warhol, soube prever a era das mídias sociais como ninguém “No futuro, todos terão seus 15 minutos de fama”, dizia.

Hoje, nos tempos dos 15 minutos de fama, a ilustração volta para trazer alma,  “manufatura” e um pouco de ar fresco ao cenário fashion. É empolgante saber que nesta mesma estrutura que massifica e nos vicia na nossa própria imagem, podemos encontrar pedaços de almas perdidos, não fosse uma organização tão banalizada.

Uma das ilustradswimwearoras/blogueiras mais famosas do mundo da moda, a  francesa Garance Doré, passou anos de sua vida “meio perdida,” pulando de galho em galho em empregos que não lhe convinham, até resolver assumir de fato sua essência artística. Correu atrás de revistas e marcas para apresentar seus desenhos, em vão. Foi com 31 anos que ela fez a promessa de postar religiosamente 3 vezes por semana algo em seu blog, entre ilustrações e pequenas histórias. Persistiu, e quando se deu conta, estava sendo seguida por centenas, milhares de pessoas, trabalhando para marcas como Chanel e Dior, firmando-se como um fenômeno da moda.

Já, a purpurinada Katie Rodgers encantou as passarelas internacionais com seu dom de família: Rodgers cresceu rodeada por músicos e ilustradores, e costumava desenhar looks de grandes marcas nas horas vagas, quando ainda era designer para a Rebook. Bailarinas aquareladas, lantejoulas esvoaçantes, uma feminilidade tão cristalina que parece submergir de suas entranhas. Ao lançar seu blog, o efeito “bola de neve” foi tamanho, que ela viu-se ganhando melhor como freelancer do que no seu emprego. Hoje, trabalha para grandes marcas e escolhe a dedo os desfiles que deseja assistir e garante que a base de toda criação é a imaginação.

Com um estilo mais despojado, Donald Roberston, por sua vez, costumava ser um bem sucedido empresário do ramodonald-robertson-Eric-Firestone-3-thumb-620x475-91400 dos cosméticos, e tinha como hobbie criar ilustrações de moda. Um dia, criou um instagramcomo eu e você. De repente, viu-se com uma avalanche de seguidores, o que fez seus desenhos caírem na graça de Beyoncée e outras celebs. Desde então Robertson é considerado o Andy Warhol do insta e nos relembra de prestar atenção aos nossos instintos infantis. “Sejam puros, não tentem agradar aos outros.”

Em tempos de selfies desmesuradas, é um alívio saber que lá no fundo o ser humano ainda admira o humano dentro dele, a expressão única, que somente aquela pessoa, naquele momento e com aquele filtro de ideias poderia ter materializado para tocar o nosso coração e vontade constante de nos surpreender com a beleza e leveza de cada um. Ilustrações de moda, um reflexo de nosso tempo? 

 

Escrito por

Uma jornalista de moda que adora mergulhar na profundidade das coisas e que abomina superficialidades. Principalmente quando dizem que a moda é superficial! Ama um bom cashmere, um acessório marcante e um sapato confortável, sem nunca abrir mão da arte e do design.

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