Carô Correia – uma chapeleira bem brasileira

destaque

Uma chapeleira, jovem e sofisticada, que procura valorizar suas raízes brasileiras. Aos 33 anos de idade e natural de Florianópolis, Carô Correia desponta no cenário nacional pela delicadeza e charme de seus chapéus artesanais. A ex-administradora de empresas, que largou tudo para estudar a arte da chapelaria em Londres com uma discípula do renomado chapeleiro inglês Philip Treacy, acredita que a mulher brasileira está redescobrindo o chapéu. Com palhas de nomes diferentes como taboa, criciúma e buriti, além de fibras naturais como a sinamay, utilizada na alta chapelaria, Carô cria peças exclusivas, alegres e femininas para todas as estações do ano.
Conheça mais sobre a Carô e seus processos criativos nesta entrevista especial para o site estilo:

Schermata 2017-02-18 alle 11.53.02

1. De onde vem essa paixão pelos chapéus?

Na verdade foi uma descoberta. Sempre gostei de chapéus, meu pai e meu avô usavam, mas nunca usei muito aqui em Floripa. Lembro que me apaixonei mesmo quando morei em Londres e voltei completamente apaixonada por este acessório. Trabalhei minha vida toda com administração e educação na empresa da minha família. Não estava feliz e resolvi fazer um processo de coaching. De repente, apareceu do nada um curso de chapelaria para fazer em Londres. Foram três meses estudando todos os processos de criação com Chloe Scrivener, discípula do renomado chapeleiro inglês Philip Tracey.

2. Como funciona o processo de criação e produção dos chapéus sob medida?
Meu processo de criação é muito interno, tem sempre a ver com meus momentos. Já quando é algo personalizado sempre tenho uma boa conversa com o cliente para entender melhor a sua personalidade, suas necessidades, e depois parto para a criação.
A produção é toda feita manualmente, mulheres de uma comunidade do interior do Paraná, chamada Cerro Azul, trançam e tingem as palhas para mim. Depois coloco os chapéus numa forma especial e o acabamento é todo feito à mão.
Nossas caixas também são artesanais. Gosto muito de valorizar este tipo de produto.

Schermata 2017-02-18 alle 11.49.56 Schermata 2017-02-18 alle 11.50.11

Todos os chapéus são feitos sob medida para o estilo da cliente.

3. Você fez uma pequena coleção com as rendeiras de bilro da ilha de Santa Catarina. Como foi essa experiência?
Foi uma parceria ótima, que rendeu chapéus muito lindos. Fizemos 5 modelos exclusivos. Um deles é todo feito em renda de bilro, com design criado por mim. Eu definia os pontos, o modelo e acompanhava o processo de criação com as rendeiras. Em outro, as rendas foram aplicadas na aba e o chapéu foi todo feito com fibra sinamay, uma fibra natural utilizada na alta chapelaria. Foi um processo criativo muito demorado e delicado, mas eu adorei fazer.

13116621_967286953393001_779526139_n Schermata 2017-02-18 alle 11.32.11

Detalhes da delicada produção da viseira com renda de bilro

Schermata 2017-02-18 alle 11.35.03

Chapéu com detalhes em renda de bilro

4. Você também produz alta chapelaria para festas de casamentos. Até agora, qual trabalho foi mais marcante?
O trabalho mais marcante é sempre aquele feito com mais emoção, né. Sempre que estou fazendo um chapéu fico lá pensando em um monte de coisas boas que essa pessoa vai realizar ou sentir quando estiver usando. Faço assim também com a alta chapelaria. Mas para mim o mais marcante foi fazer o acessório de casamento da minha irmã. Ela, toda tradicional, abandonou o véu para usar o voilette. É muito legal ver pessoas tentando o novo e se sentindo lindas! Ela estava maravilhosa.

5. Investir em materiais sustentáveis e na produção local é um dos diferenciais da sua criação. Como você chegou até os projetos sociais que atuam junto a Carô Chapelaria?
Como sempre atuei na área da educação e minha mãe nos educou economizando e reaproveitando tudo, eu por fim achava a moda muito fútil. Então tinha o desejo de tornar a minha marca e o meu trabalho algo com mais sentido. Foi quando, procurando palhas brasileiras, encontrei as artesãs do interior do Paraná, que hoje produzem palhas para a minha chapelaria. Eu também utilizo a palha de toquilla, proveniente do Equador e que é tradicional nos chapéus panamá. Mas os preços ficaram exorbitantes e foi por isso que eu resolvi voltar os meus olhos para o mercado local.

13534045_530355997164596_1373163846_n

Chapéu feito inteiramente em renda de bilro

6. A valorização do artesanal e a busca por peças mais exclusivas são fortes tendências de consumo atuais. Você acredita que essa mudança de comportamento pode transformar a maneira como produzimos e consumimos moda?

Com certeza! Acredito que esta mudança nos faz voltar nossos valores para a cultura e tradição das nossas comunidades, tudo que fez parte do que somos hoje. Me parece que nos últimos tempos nos tornamos extensões da internet e dos nossos celulares, é tudo tão automático e virtual que queremos voltar a reconhecer o tempo, a sentir.

7. Você vê alguma mudança nos hábitos das brasileiras? Elas ainda hesitam na hora escolher um chapéu?

Eu vejo o Brasil como um país tropical, onde poderíamos e deveríamos usar chapéus todos os dias, para proteger a pele do sol. No inverno, aqui no Sul, também vejo o chapéu como um grande aliado, seja para proteger do frio, seja para aqueles dias em que o cabelo não acorda legal. E ele ainda é muito mais charmoso que uma touca. A mulher brasileira está começando a se entregar um pouco mais ao chapéu, mas percebo que ainda existe uma dificuldade porque essa mulher ainda está muito apegada ao cabelo. Eu acho que aqui no Brasil existe essa ideia de que a sensualidade está atrelada a cabelos longos e esvoaçantes, então talvez ela não se sinta tão sexy com o chapéu. Isso gera uma certa insegurança, porque o chapéu traz uma nova forma de feminilidade e atitude à qual ainda não estamos acostumados.

 

Escrito por

Uma jornalista de moda que adora mergulhar na profundidade das coisas e que abomina superficialidades. Principalmente quando dizem que a moda é superficial! Ama um bom cashmere, um acessório marcante e um sapato confortável, sem nunca abrir mão da arte e do design.

DEIXE UM COMENTÁRIO