Gente de Estilo: conheça Jeanne-Emilie de Lassus e a plataforma Soulcrafters

destaque emilie

 

Jeanne-Emilie de Lassus é uma franco-brasileira formada em Moda pela UDESC, em Florianópolis, e pela Esmod, em Paris. Após passar um ano trabalhando no estúdio feminino da Hermès na capital francesa, ela retornou ao Brasil e passou a trabalhar como estilista na marca Duna Casual Beachwear, durante três anos. Sempre envolvida em projetos sociais, ela resolveu unir suas duas paixões – a moda e o trabalho humanitário – em uma só plataforma. Assim surgiu o Soulcrafters, um site que reúne iniciativas sociais criativas e busca trazer visibilidade para projetos que capacitam e reintegram grupos socialmente desfavorecidos.

Conversamos com Emilie e ela nos contou tudo sobre essa iniciativa tão especial, confira:

1 – De onde surgiu o interesse em unir moda e trabalho humanitário? 

O sentimento sempre existiu, mas foi com o passar dos anos que tomou uma forma. Quando eu era pequena, minha mãe me contava historias de princesas, fadas e natureza, o que me motivou a materializar ideias através de tecidos e cores, me tornando estilista. Por outro lado, o fato de ter crescido entre dois países tão diferentes do ponto de vista social, me indicavam intuitivamente que meu caminho seria este, de criar oportunidades através da beleza e criatividade.

 

2 – O SoulCrafters busca destacar e valorizar os talentos humanos, através do trabalho de projetos sociais que capacitam e reintegram grupos sociais desfavorecidos. Como você chegou até esses projetos?

Há quatro anos, um amigo comentou sobre o projeto Malharia Social, na penitenciária feminina de Florianópolis, que formava e reintegrava detentas através de uma confecção montada no presídio. Achei a iniciativa genial e participei ajudando nas aulas de costura. Todas as pessoas envolvidas nesse projeto vinham de horizontes diferentes mas de alguma forma se completavam. Infelizmente, a Malharia não resistiu à falta de incentivo, mas os contatos ficaram. A estilista Mimi Wolf continuou com um projeto no presídio, um atelier de costura, e foi a primeira convidada a participar do site. Os projetos Vidro com Vida, Arthis e Atelier de Ideias fazem parte da Trama Ética, ONG criada pela professora Neide Schulte, que há anos vem abrindo caminho na área da moda sustentável em Florianópolis. Ela foi minha professora na Udesc e nos reencontramos na Malharia Social. Já a L’Afrikana, conheci através de uma grande amiga e foi ao me envolver com este projeto que percebi que era hora de começar o meu próprio caminho na moda aliada a área social. O site acaba de ser lançado, mas já temos muitos outros projetos juntando-se a nós.

 

3 – Com o despertar da sociedade para um consumo mais consciente, quais impactos positivos você consegue avaliar?

Acho que estamos caminhando lentamente para uma verdadeira transformação social, pois hoje em dia todo mundo esta sendo obrigado de uma forma ou de outra a se ligar mais na qualidade de vida, saúde, natureza e tudo isto passa pela consciência, em todos os sentidos. Quando eu tinha 7 anos, decidi ser vegetariana pois não queria matar animais a toa. Eu era a única…hoje em dia, quantos vídeos de crianças implorando para não comer carne, circulam por ai? Sei que estas, já são pessoas que respeitarão toda forma de vida e não irão usar couro, por exemplo.

Há algumas semanas, uma amiga que trabalhou muito tempo na Chanel Haute-Couture me ligou. Ele tinha assistido The True Cost, filme que mostra a verdade sobre a cadeia produtiva da moda. Ela chorou durante dias após assistir o filme e jurou que se soubesse antes, nunca teria trabalhado nesta indústria…

Todos de alguma forma têm sido chamados para a realidade, e acho que a manifestação deste impacto se da em cada pessoa e local de formas diferentes.

 

4 – Como franco-brasileira, quais as principais diferenças que você enxerga na maneira de consumir moda nos dois países?

As brasileiras não tem medo, no sentido literal do termo, de brilhar: existe uma constante exposição da feminilidade, do corpo. Admiro este lado “assumido” delas, mas as vezes me parece que no Brasil acabamos nos validando através do corpo e da ostentação, isto cria um valor cultural voltado para um padrão ilusório que tira o foco da nossa essência. Vejo que muitas pessoas se perdem, inclusive financeiramente, para poder manter essa imagem.

Percebo o mesmo padrão na França, mas ao contrário! Aqui as mulheres preferem se destacar justamente pela sua naturalidade. Ostentar e consumir demais é mal visto, a elegância e o estilo nos detalhes são mais importantes que o físico ou do que o status.

 

5 – Além do SoulCrafters, você está envolvida em outras iniciativas sociais? Quais?

Criei este site justamente para poder estar envolvida em muitos projetos ao mesmo tempo: competência e talento não faltam em nenhum deles, o que falta é mostrar para as pessoas certas, que saibam valorizar estas iniciativas e perceber a importância que elas têm na fomentação da nossa sociedade. Acredito que seja neste sentido que eu possa ser mais útil, e não no campo de trabalho propriamente dito. No momento não estou atuando em iniciativas de forma mais especifica, mas estou trabalhando para agregar mais projetos sociais ao site, principalmente projetos relacionados as crianças vítimas da guerra do Vietnam, que foram minha verdadeira inspiração para criar o site. Passei 9 meses neste país como voluntária e pretendo agregar muitos artesãos fragilizados que precisam dar visibilidade aos seus trabalhos.

 

6 – Você acredita que a cadeia de moda tradicional possa, futuramente, aderir à métodos de produção mais sustentáveis, tanto do ponto de vista social quanto do ponto de vista ambiental? Como?

Acho que tudo é questão de hábito e tempo, mesmo porque estas mudanças são obrigatórias para nosso equilíbrio. Mas sinceramente, para o Brasil eu acredito mais em atos simples, que aos poucos vão se tornando naturais, do que em grandes mudanças políticas ou econômicas em favor da consciência.

Ao ir a um mercado na França hoje, você tem que levar a sua própria sacola, ou carrega as compras nas mãos até sua casa…ou você pode comprar uma sacola no mercado, mas sinceramente nunca vi alguém comprar, porque o francês de forma geral não joga dinheiro fora à toa. Esta lei foi imposta pelo governo francês, mas na atual situação do Brasil, seria ingenuidade acreditar que uma lei destas possa ser vista como uma prioridade.

Então, para responder a pergunta: que tal dar uma olhada no site Soulcrafters e seguir a tendência francesa de levar sua própria sacola para o mercado? Comprando uma bolsa reciclada, feita pelas detentas do presídio de Florianópolis, você contribui para uma cadeia de moda mais sustentável, tanto do ponto de vista social quanto ambiental! Fácil né?

 

SAIBA MAIS

O Soulcrafters propõe a valorização do trabalho e da criatividade de cada ser, buscando promover a inclusão social e gerar renda para pessoas em situações sociais desfavorecidas, disseminando a moda e o consumo consciente através da venda peças exclusivas. O site está se tornando uma associação e, por enquanto, foca nas iniciativas sociais brasileiras. Confira alguns produtos vendidos na plataforma:

 

Conheça os projetos que integram a iniciativa

L’AFRIKANA:

Idealizada em Kabiria, uma favela da cidade de Nairobi, o projeto começou a sua história como uma marca de roupas que formava seus artesãos, todos refugiados de guerra. Hoje, transformou-se em uma iniciativa que conecta artesãos e alfaiates africanos, em estado de refúgio e migração tanto no Quênia quanto no Brasil, disseminando criações africanas inovadoras e de qualidade.  A filosofia da L’AFRIKANA é: “Onde a pobreza persiste, não há verdadeira liberdade”, Nelson Mandela.

 

Atelier de Ideias:

A alma do Atelier é inspirar as pessoas a criar e transformar coisas a partir de materiais reaproveitáveis. Nele, resíduos descartados são transformados em acessórios e objetos de decoração. Além do trabalho de reciclagem, foi criado recentemente o projeto Armários Coletivos, onde roupas e objetos usados são colocados a disposição de quem precisa. A ideia é de criar, em cada bairro da cidade, um Armário Coletivo que permite repensar nossa visão da colaboração, da troca e da transmissão uns com os outros.

Atelier Mimi Wolf:

Comandado pela estilista e empreendedora social Mimi Wolf, o projeto tem a missão de transmitir conhecimentos às mulheres em privação de liberdade da penitenciária de Florianópolis. O Atelier apresenta às detentas a possibilidade de criar e confeccionar produtos, para que estas possam reintegrar-se ao mercado e à sociedade, trabalhando a autoestima e revelando os seus talentos próprios.

No Brasil, apenas 7,4% da população carcerária é feminina. As detentas que participam do atelier têm suas penas reduzidas e beneficiam de uma renda. Graças a este projeto, muitas mulheres que terminaram suas penas foram integradas no mercado de trabalho ou começaram seu próprio negócio artesanal, possibilitando a redução do índice de reincidência criminal.

Arthis:

O projeto busca preservar a arte da renda de bilro, uma das mais importantes manifestações culturais do sul do Brasil. Sob o comando da artesã Salete Boschi, as peças produzidas pelo coletivo buscam aliar  tradição e modernidade, sem perder a identidade local. Ao mesmo tempo em que buscam desenvolver produtos atrativos para os usuários, as mulheres incentivam novas gerações a aprender a arte da técnica, para que a mesma permaneça como uma marca da identidade cultural regional.

 

Vidro com Vida:

O foco do projeto é a produção de acessórios criados através do beneficiamento e transformação do vidro descartado. Além de incentivar a reciclagem, o programa promove a geração de trabalho e renda, contribuindo para o empoderamento da comunidade de baixa renda do Morro da Queimada, em Florianópolis.

Escrito por

Uma jornalista de moda que adora mergulhar na profundidade das coisas e que abomina superficialidades. Principalmente quando dizem que a moda é superficial! Ama um bom cashmere, um acessório marcante e um sapato confortável, sem nunca abrir mão da arte e do design.

DEIXE UM COMENTÁRIO