O futuro do luxo é feito à mão

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O mercado do luxo é um setor muito particular. Seu modelo de negócios é baseado na raridade, o que garante qualidade excepcional associada à um senso de privilégio. No luxo, o sucesso não é medido pelo volume de vendas, mas sim pelo fator sonho: quanto mais desejado e exclusivo for o produto, maior o seu prestígio. Com a massificação da produção, no entanto, esse sentido se perdeu. Objetos que antes poderiam ser considerados especiais, hoje tem seus designs reproduzidos em larga escala pelas fast fashions, dias após o seu lançamento, dissolvendo boa parte do apelo da exclusividade. Os consumidores também mudaram e agora procuram experiências mais autênticas, onde o valor sentimental de uma peça é muito mais importante do que o preço da sua etiqueta. Para Judy Bassaly, consultora e ex-presidente de marketing da Giorgio Armani, existe uma mudança filosófica ocorrendo no mundo e transformando o conceito do luxo, que hoje está mais ligado às experiência do que ao produto.

Na Europa, a ideia do luxo sempre esteve associada a uma empresa que faz a mesma coisa há gerações, com herança e know how reconhecidos e um endereço histórico. A Hermés é um dos exemplos mais tradicionais: da matéria-prima bruta aos retoques finais, uma bolsa da marca demora de quinze a vinte horas para ficar pronta — ritmo que explica a lista de espera de até três anos, caso da Birkin de crocodilo. No processo de produção, a máquina de costura entra em ação em pouquíssimas etapas, já que os produtos de luxo da marca são quase que inteiramente manufaturados, criados por artesãos especializados.

Vídeo que mostra a produção da bolsa Kelly, um clássico da grife francesa Hermès. 

Hoje, a nova ideia do luxo está mais ligada à expressão criativa das tradições manuais. A marca Urban Zen, fundada pela estilista Donna Karan, tem como objetivo conectar pessoas e preservar a cultura do artesanato global. Todas as suas peças são feitas à mão, utilizando técnicas tradicionais dos mais diversos povos. Em sua última coleção, batizada de Silk Road Collection, a estilista traz vestidos e quimonos em sedas finas, tingidos manualmente e produzidos por artesãos da famosa Rota da Seda. Cada peça vendida ajuda a arrecadar fundos para a fundação Urban Zen, que luta pela preservação das culturas e a educação das crianças. Honrando o papel criativo do artesão, Donna Karan promove o luxo com alma, um consumismo mais justo, que beneficia quem produz e traz impactos positivos para a sociedade.

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Urban Zen, da estilista Donna Karan

No Brasil temos o Artiz, um projeto que está reinterpretando e ressignificando o artesanato local,  sob a criteriosa curadoria de Sonia Quintella de Carvalho. Ex-diretora da Gucci, ela largou a carreira executiva para presidir o coletivo ArteSol, que reúne designers e estilistas que viajam até as comunidades de artesãos para um intercâmbio de conhecimentos e a cocriação. O resultado é um mix de produtos exclusivos e altamente sofisticados, onde a autenticidade e a sustentabilidade são palavras-chave.

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Artiz: bolsas em marchetaria por Maqueson Brasil, do Acre.

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Artiz: Bolsa Estrela, trançada à mão em fibra de buriti, de Barreirinhas, Maranhão.

Nos últimos anos, o mundo da moda começou a voltar o seus olhares para os países emergentes. Esses locais foram pouco tocados pelo processo de industrialização e preservam suas estéticas características, revelando-se como os novos oásis da criatividade, em meio a um mundo tão digital. É nesse contexto que o artesanato tradicional ressurge como item de desejo, com a curadoria dos olhares treinados pelo universo da moda. Com refinamento estético e design arrojado, o feito à mão se transformou no novo conceito de luxo, produzido em pequena escala, com técnicas milenares que transformam cada peça em uma obra única, repleta de história e tradição.

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As bolsas do estilista indiano Vipul Shah são contemporâneas, mas refletem a cultura e o patrimônio histórico dos tecidos coletados pela sua família ao longo das gerações.

Tecidos tingidos e estampados à mão na India, uma bolsa de palha com pompons produzida pelos nativos do Equador ou mesmo um chapéu panamá feito sob medida com palhas brasileiras, esses objetos, que antes eram vistos como exóticos, hoje carregam consigo a expressão do mais puro luxo. As técnicas manuais, passadas de pais para filhos, trazem para os objetos uma riqueza poética, pontuada pela exclusividade de possuir uma peça com tanta história para contar.

 

Por: Francieli Hess

Escrito por

Uma jornalista de moda que adora mergulhar na profundidade das coisas e que abomina superficialidades. Principalmente quando dizem que a moda é superficial! Ama um bom cashmere, um acessório marcante e um sapato confortável, sem nunca abrir mão da arte e do design.

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