O “gênero” fora da caixa. Call me Caitlyn, diz Bruce Jenner

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Passei minha infância, em família católica, escutando que “virgindade” era algo para guardar na caixinha até o casamento. Movimentos feministas e muitas décadas depois, conseguimos olhar pra trás e reconhecer o peso de um tabu. Escondidos em milhares de caixas metafóricas, ou como preferem brincar os brasileiros – em armários, milhões de homosexuais precisaram (e ainda precisam) tomar coragem, para se assumirem diante de uma sociedade conservadora e cheia de preconceitos. Olhando para trás vê-se que o mundo avançou no sentido de maior aceitação e reconhecimento. A Irlanda, profundamente católica e conservadora, aprovou um referendo para mudar a constituição e garantir os direitos do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Há uma parte do planeta que vive na idade média, é certo. Mas avançamos na esperança de que com mais informação e o um senso de humanidade mais apurado possamos sempre superar a força dos extremistas em todos os cantos onde se encontrem.

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Estudantes da Irlanda se manifestam a favor do casamento entre o mesmo sexo

Austrália foi a primeiro país a autorizar no passaporte um terceiro gênero, chamado “indeterminado”, para quem não se enquadre dentro da classificação, homem ou mulher.  Com a mudança no passaporte, a Austrália na prática estende para todos os cidadãos o direito conquistado na Justiça por Norrie May-Welby. Norrie, que nasceu homem, havia feito cirurgia de sexo para se tornar mulher, mas não se adaptou à nova condição. Recorreu à Justiça e se tornou a primeira pessoa do mundo a ser reconhecida como “genderless”, ou sem gênero específico. Após a decisão, Norrie May-Welby declarou: “Os conceitos de homem e mulher não cabem em mim, não são a realidade e, se aplicados a mim, são fictícios”. Como Norrie, milhões de pessoas em todo o mundo estão fora das classificações tradicionais.

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Norrie May-Welby exibe seu passaporte australiano

Com a força da mídia e a coragem do americano Bruce Jenner, que agora aparece na capa da revista Vanity Fair, pedindo para ser chamado de Caitlyn, o mundo está diante de outra caixa a ser aberta, a da discussão sobre “gênero”. Bruce, 65 anos, atleta olímpico consagrado, padrasto de Kim Kardashian, teve a coragem de revelar a infelicidade de passar sua vida, vivendo como um impostor para si mesmo. Um homem, perante a sociedade, vivendo a dualidade de se sentir mulher. Teve a coragem de sair da caixa como porta bandeira de muitos outros que se sentem na mesma situação. História. Histórico. Bruce Jenner, agora Caitlyn, chacoalha o planeta. Atitude que muda o curso das coisas e que faz que uma sociedade nunca mais seja a mesma.

 

Escrito por

Uma jornalista de moda que adora mergulhar na profundidade das coisas e que abomina superficialidades. Principalmente quando dizem que a moda é superficial! Ama um bom cashmere, um acessório marcante e um sapato confortável, sem nunca abrir mão da arte e do design.

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