Tie Dye ou Shibori: a arte milenar do inesperado é destaque nas passarelas internacionais

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Você com certeza já deve ter ouvido falar do tie-dye, uma expressão em inglês que significa “amarrar e tingir” e é comumente utilizada para denominar a antiga arte de manipular tecidos através de amarras e costuras, para depois mergulhá-los em soluções coloridas e obter padrões encantadores.  A técnica trata-se, na verdade, do Shibori, um procedimento milenar, que liga culturas no tempo e no espaço. Os primeiros exemplos da sua prática foram encontrados junto aos povos do Peru, Japão, China, Indonésia, África e Índia. Embora cada grupo tenha desenvolvido seus próprios métodos e padronagens tradicionais, os princípios básicos da técnica se repetem.

O termo tie-dye, como conhecemos, se popularizou muito na língua inglesa e é utilizado para agrupar, de forma bastante simplista, os diversos estilos de Shibori existentes. O nome original da técnica vem do verbo japonês shiboru, que significa “torcer, apertar e pressionar”.

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Alguns tipos de Shibori existentes: as possibilidades são quase infinitas!

O Shibori é uma arte que carrega consigo a magia do inesperado: quem a cria nunca pode ter certeza do resultado antes do final. Existem inúmeras maneiras pelas quais um tecido pode ser manipulado para criar o Shibori: ele pode ser ligado, dobrado, torcido, comprimido, costurado ou amarrado. Cada método desses resulta em padrões diferentes, que são determinados pela forma como o tecido absorve e resiste ao pigmento. Dessa maneira, a intensidade do banho de corante, a composição e a espessura do tecido também interferem no resultado, aumentando o elemento surpresa da técnica.

 

Tendência – shibori nas passarelas

Com influência da crescente valorização do trabalho artesanal e das técnicas manuais, o Shibori começou a despontar nas coleções Resort 2017 em uma de suas versões mais tradicionais: o índigo. As grifes Tory Burch e Prabal Gurung trouxeram a técnica em sedas fluidas tingidas de azul e branco, que trouxeram a leveza necessária para as saias e vestidos do verão.

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Tory Burch – Resort 2017

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Prabal Gurung – Resort 2017

Na coleção Resort da ACNE Studios, o efeito é mais artesanal e traz uma pegada bem hippie chic. Shapes alongados e cores suaves ajudam a compor o look, bastante jovem e com aspecto quase rústico, com cara de “feito em casa”.

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ACNE Studios  – Resort 2017

A grife Valentino também escolheu um tingimento mais rústico para o seu Pre Fall 2017. A coleção passeia pelo militarismo, com jaquetas utilitárias e calças de sarja tingidas em rajadas de tons terrosos, criando uma releitura interessante e muito atual da estampa camuflada. Os calçados e acessórios também entram no clima do Shibori e as peças ganham patches botânicos que seguem os tons da estamparia.

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Valentino Pre Fall 2017

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Valentino Pre Fall 2017

Explorando tons de preto, dourado e marrom, Olivier Rousteing propõe para o inverno 2017 da Balmain uma coleção inspirada pelo rock, mas com fortes referências visuais étnicas. Muitas sobreposições, franjas, suedes e shiboris de aspecto rústico, quase tribal, apareceram na passarela, em looks arrematados por cinturas ultra marcadas e botas de cano longuíssimo, reforçando a imagem de mulher sensual e poderosa que Rousteing traz para a marca.

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Balmain Fall 2017

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Balmain Fall 2017 (detalhes do tie dye em tons terrosos, combinado com a estampa de cobra)

O shibori pelo mundo

Ao longo da história, inúmeras técnicas de tingimento manual foram criadas pelos mais diferentes povos. No caso do shibori, os exemplares mais antigos são da alpaca pré-colombiana shibori encontrada no Peru e também da seda encontrada em túmulos do século IV ao longo da Rota da Seda, na China. Atualmente, a produção artesanal da técnica pode ser vista, em maior quantidade, na África Ocidental, no sul da China e nas regiões ocidentais da Índia. Um menor grau de produção continua forte no norte da África, no Oriente Médio, na Indonésia e na região do Himalaia.

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Bandhani – técnica de shibori produzida na India

Os materiais utilizados variam bastante, refletindo o contexto econômico, social e ambiental de cada país: nos Andes, por exemplo, o shibori era produzido com alpaca, enquanto no Himalaia a produção vinha da lã de ovelha e na China o shibori mais tradicional era feito a partir de algodão.

No Japão, o primeiro exemplo reconhecido de um tecido tingido com a técnica de shibori data do século XVIII e está entre os bens doados pelo Imperador Shōmu ao Tōdai-ji, em Nara. Até o século XX, não havia muitos tecidos e corantes de uso generalizado no país. Os tecidos principais eram a seda, o cânhamo e mais tarde o algodão. O corante principal era o índigo, extraído do anil, um pigmento azul tão amplamente utilizado que se tornou referência quando falamos em shibori japonês.

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Shibori Índigo produzido no Japão

Os tingimentos manuais também são bastante expressivos na cultura indiana. A técnica mais conhecida no país é a Bandhani, que remonta ao século 4000 a.C. e é executada até hoje no Rajastão e no Paquistão. Bandhani vem da palavra sânscrita banda, que significa “amarrar”, e consiste em cobrir pequenos pedaços do tecido com linha, criando desenhos e padrões geométricos a partir da concentração de pontilhados.

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Bandhani – produção

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Bandhani – resultado

Por: Francieli Hess

Escrito por

Uma jornalista de moda que adora mergulhar na profundidade das coisas e que abomina superficialidades. Principalmente quando dizem que a moda é superficial! Ama um bom cashmere, um acessório marcante e um sapato confortável, sem nunca abrir mão da arte e do design.

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