Um brocante em Paris, com o fotógrafo Márcio Madeira

Márcio Madeira

Ele é um dos mais renomados fotógrafos de moda brasileiros no exterior. Mestre em cobrir com sua experiente equipe as semanas de moda das grandes capitais do planeta, Márcio chegou à Paris ainda jovem, com apenas 18 anos. Na cidade luz fixou residência e instalou sua respeitada agência de fotografia de passarela, a Zeppelin. Foi pioneiro e desbravador. Deixou a barba crescer e a manteve como assinatura de estilo antes mesmo dos lumber sexuals fazerem sucesso. Com suas camisas excêntricas estampadas com motivos de aviões de guerra e tubarões, Márcio até hoje causa medo em muita gente que o acha sério demais e impenetrável. Para os amigos, ele se revela um homem de elegância discreta, de ironia fina, com um forte gosto pela moda, fotografia e as artes.

Em Paris há 33 anos, Márcio passou a ser um assíduo frequentador dos “Brocantes” – termo que também é associado a um mercado de pulgas, espécie de feira de rua, onde se vendem antiguidades, roupas vintage, acessórios, livros, louças e muitos outros tipos de objetos. “Eu sempre gostei de antiguidades. Quando eu morava no Rio de Janeiro eu já frequentava a feirinha da Praça XV, a feira do Lavradio e outras lojas de antiguidades. Inclusive no Rio é mais fácil de fazer bom negócio do que em Paris”, revela o fotógrafo, complementando com sua ironia fina que “no Brasil a clientela é limitada. Brasileiro só gosta de coisa nova como Miami e Disney”, risos.

Para essa reportagem acessei o site www.spam.fr, da associação que organiza os brocanteurs. O site apontava para a praça Charles Michels, no 15º arrodissement de Paris e foi lá que eu e Márcio marcamos nosso encontro. Alguns passos na feira e ele foi logo reconhecido por um comerciante habitué de antiguidades. De olho numa escultura de bronze Art Déco, com a imagem de um nu feminino nada convencional, Márcio começou a negociação. “Aqui o comerciante diz que uma peça é 1800 Euros e o francês logo sai fora. Eu começo a negociar e acabo levando por um terço do preço”, ressalta ele, com sorriso maroto de negociante experiente.

Sobre a atração pelos brocantes, Márcio associa ao gosto pelas artes e a curiosidade. “Além da chance de fazer um bom negócio esse é um trabalho de edição. Eu adoro essa coisa de você chegar, ver aquela bagulhada toda na sua frente e tirar aquela peça maravilhosa que custa 2 euros. Além disso, tem muito a ver com o trabalho do fotógrafo que é 50% transpiração e 50% edição. Você faz milhares de fotos pra tirar ‘aquela’, que é maravilhosa!”, ressalta.

Com a escultura de bronze Art Déco (que pesava quase 3 kilos), Márcio chamou ainda minha atenção para copos de cristal Art Déco, facas, jogos de café e muitas outras esculturas femininas do mesmo período. Vale ressaltar aqui que o Art Déco é um estilo artístico de caráter decorativo que começou na França e teve seu apogeu nos anos 20 e 30. “Eu nasci num prédio Art Déco, no bairro Flamengo, no Rio de Janeiro. Um prédio que passou por um processo muito característico de favelização do Rio e que foi ficando horroroso”, lamenta ele, acrescentando ainda, que o símbolo do Rio de Janeiro, o Corcovado é uma escultura do mesmo período. “O Art Déco com suas geometrias e detalhes orientais é muito moderno. Chega a ser moderno demais, sobretudo para o Brasil, onde as pessoas tem muito pouca referência da arte e da história”, completa.

Passear com Márcio Madeira por um brocante, e ainda por cima em Paris, foi uma experiência enriquecedora, como você pôde perceber. Além de fonte de prazer e cultura, é uma ótima oportunidade, para refletir sobre os nossos próprios valores.

Entre os brocantes de Paris, Márcio também recomenda: o Marché Saint Paul, no bairro do Marais, o Marché de Port de Clignancourt e de Vanves .

Escrito por

Uma jornalista de moda que adora mergulhar na profundidade das coisas e que abomina superficialidades. Principalmente quando dizem que a moda é superficial! Ama um bom cashmere, um acessório marcante e um sapato confortável, sem nunca abrir mão da arte e do design.

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